“Não sei dizer o quanto deixamos escapar do nosso comportamento nos personagens que criamos”

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Em entrevista exclusiva, o artista visual Valdir Marte, criador da série de HQ A vida nua de Lauro, fala sobre o projeto, suas influências, os dramas da interatividade, a temática LGBT e quanto a série tem de autobiográfica – ou não!

Desde a última terça-feira, 30 de junho, todos os episódios desta série especial estão disponíveis aqui no site. Com forte apelo homoerótico, todos os episódios da série estão disponíveis no site, com exclusividade, sem nenhuma censura, diferentemente do que acontece no Instagram.

As atualizações seguirão semanais, com novos episódios às terças-feiras, simultâneos aos da rede social.

Para acessar a todos os episódios da série A vida nua de Lauro, clique aqui.

O que é “A vida nua de Lauro”?

Valdir Muniz – É um projeto que eu estava gestando faz tempo, porque sempre tive vontade de produzir uma HQ! A questão da interação é que veio como um “plus” digamos assim. Mas o objetivo era contar a história de um personagem LGBT, onde sua orientação sexual não fosse o grande norteador dos dramas vividos por ele.

Como surgiu a ideia de abordar esse tema?

Valdir Marte – Percebi que as pessoas ficaram mais carentes de contato depois de instaurada a quarentena, o que ficou muito evidente nas redes sociais principalmente. Então, decidi adicionar essa minha vontade de produzir uma HQ com temática LGBT, e os poucos explorados dramas de viver questões do cotidiano durante uma pandemia.

“O objetivo era contar a história de um personagem LGBT, onde sua orientação sexual não fosse o grande norteador dos dramas vividos por ele”

Quais suas principais referências estéticas para “A vida nua de Lauro”?

Valdir Marte Diretamente, eu diria que a HQ Azul é a cor mais quente de Julie Maroh e, sem dúvidas, a publicação independente Bittersweet de Mary Cagnin. Indiretamente eu diria que filmes como Tinta Bruta, de Filipe Matzembacher e Márcio Reolon, que exploram mais profundamente esse contexto LGBT fora da adolescência.

E quais as principais referências do seu trabalho como artista visual?

Valdir Marte Creio que meu estilo de ilustração teve os filmes da Disney  e desenhos animados da época como moldes, digamos assim. São muitas as inspirações também de artistas mais contemporâneos, muito visíveis nessa esfera virtual. De cabeça, posso citar Lois Van Baarle (conhecida como Loish), e os brasileiros Henrique Ilustra, Lucas Werneck e Leo Mendes.

O projeto tem um diferencial por definição, que é sua interatividade. Por que você optou por esse formato?

Valdir Marte Foi uma tentativa de saciar uma sede latente por conexão gerada pelo isolamento social, essa vontade de participar e se engajar em algo que senti nas pessoas!

Como a interatividade funciona na prática?

Valdir Marte Às terças, 19 horas, eu libero um novo capítulo (geralmente me preocupando em deixar o final envolto em certo mistério haha), e então, às quartas, no mesmo horário, libero uma cena com a enquete que decidirá o que ocorre com o Lauro a seguir. Só com o resultado definido no dia seguinte, é que começo a produção do próximo capítulo. Então, todo o processo acaba sendo uma grande surpresa para mim também! É realmente como se a trama tivesse vontade própria (no caso a do público).

Um dos prazeres da autoria é ter controle sobre o destino dos personagens. Como tem sido a experiência de abrir mão desse prazer?

Valdir Marte Um exercício de desapego e tanto! Muitas vezes queria que a história tivesse um desenrolar diferente, mas perceber que as pessoas guiam o destino de Lauro por identificação me faz ver que vale a pena! Até mesmo para adquirir uma nova visão sobre situações sociais, como quando me perguntaram se determinado personagem era trans, ou quando demonstraram preocupação quando sexualizar demais o Gabriel, que é um homem negro. Essas observações externas me fazem refletir sobre esses temas e minha produção de um jeito muito diferente!

“Muitas vezes queria que a história tivesse um desenrolar diferente, mas perceber que as pessoas guiam o destino de Lauro por identificação me faz ver que vale a pena!”

Como tem sido a recepção no Instagram? Você se surpreendeu?

Valdir Muniz – Foi uma grande surpresa, na verdade! O projeto foi lançado de forma despretensiosa, e, de repente, havia muitos comentários e pessoas que realmente gostaram da série e que se sentiam representadas, tanto por se reconhecerem em situações difíceis como o término, mas também pela representatividade de raça, gênero e sexual, e até mesmo no modo de falar “nordestino” presente nos diálogos.

Você poderia falar sobre esse novo momento, em que ele ganha desdobramento no site?

Valdir Marte É uma ótima oportunidade para expandir a visibilidade do projeto, e também explorar a possibilidade de publicar as cenas de sexo sem censura (ainda um tabu no Instagram), pois o objetivo é retratar as personagens da forma mais humana possível, logo, essa perspectiva sexual, essa expressividade, é muito importante para estreitar laços entre os leitores e a trama.

Por fim, muito se especula sobre o quanto “A vida nua de Lauro” tem de autobiográfico. É delicado falar sobre isso?  

Valdir Marte Não sei dizer o quanto deixamos escapar do nosso comportamento nos personagens que criamos, mas tento ao máximo me distanciar da personalidade do Lauro! Embora ele tenha, com certeza, herdado meus gostos por animes dos Anos 90, e também uma certa “veia dramática”!

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