“Mesmo depois do sucesso do filme, continua difícil financiar próximos projetos”

482 0

Em junho de 2019, Pacarrete fez sua première mundial disputando a competição oficial do 22º Shanghai International Film Festival, na China. A estreia de Allan Deberton na direção de longas-metragens chamou atenção da crítica especializada e ganhou resenha elogiosa na prestigiada The Hollywood Reporter. Era um sinal do que estava por vir. Ao desembarcar no Brasil, o filme arrebatou oito kikitos no 47º Festival de Cinema de Gramado, entre eles os de Melhor Filme, Diretor e Roteiro.

De lá para cá, Pacarrete já foi selecionado para outros 18 festivais internacionais, dos Estados Unidos a Índia, da Inglaterra a Bogotá. E já foi exibido em mais de 15 festivais brasileiros, parte deles disputando a competição, recebendo o prêmio de Melhor Filme em vários, e em muitos outros como convidado hors concours.

Quando ainda vivíamos na normalidade, o filme tinha data para estreia nacional em 50 salas de cinemas: 30 de abril. Mas eis que chega a tal da pandemia e carrega a normalidade para lá.

Agora, o espectador brasileiro terá excelente oportunidade para conferir a história desta bailarina idosa e incomum, que vive em Russas, e decide fazer uma apresentação de dança, como presente, “para o povo”. O filme integra o projeto Espaço Itaú Play e estará disponível amanhã e quinta-feira (25 e 26/6) no site: https://www.itaucinemas.com.br/home/ . O ingresso custa R$ 10 e 20% do valor serão destinados à Associação Brasileira da Produção de Obras Audiovisuais (Apro).  A pré-venda já começou.

Para assistir ao trailer de Pacarrete, clique aqui.

Em entrevista exclusiva ao site, o diretor Allan Deberton fala sobre o atual momento do cinema brasileiro, as expectativas para esta pré-estreia online, a carreira do seu primeiro longa e o que o levou a realizá-lo.

Como surgiu a ideia de filmar Pacarrete?

Allan Deberton – Foi em dezembro de 2007, ou seja, há quase 13 anos. Eu estava em Russas, onde nasci, nas minhas primeiras férias da faculdade de Cinema (UFF-RJ). Descobri na época que a mulher que todos chamavam de doida na verdade foi uma bailarina e grande professora de artes. Fiquei tocado com a história desta personagem folclórica de minha cidade e, quanto mais pesquisava sobre ela, mais me apaixonava.

Quando tempo levou para tirar o projeto do papel?

Allan – Eu sabia que seria o meu primeiro longa-metragem. Precisei fazer vários curtas antes para me sentir melhor preparado para contar esta história. Precisava juntar uma equipe de excelentes atores e de excelentes técnicos para eu conseguir um filme bonito, de se ver e sentir. Então demorou mais de 10 anos. Foi o tempo necessário para me aprofundar na narrativa, junto com a equipe de roteiristas, e descobrir de que forma a história seria contada.

Qual foi o momento mais difícil ao longo desse processo? Você chegou a pensar em desistir?

Allan – O financiamento. Foram várias tentativas e o projeto sempre rejeitado. Foi aprovado num dos mais concorridos, com nota 10, no Edital de Baixo Orçamento do Ministério da Cultura, hoje extinto. Nunca pensei em desistir, só não sabia porque era tão difícil. Mesmo depois do sucesso do filme, de público e de crítica, continua sendo difícil financiar os próximos projetos. Fazer cinema exige muita força de vontade, muita mesmo!

“Mesmo depois do sucesso do filme, de público e de crítica, continua sendo difícil financiar os próximos projetos. Fazer cinema exige muita força de vontade, muita mesmo!”

Como você chegou aos nomes que integram o elenco?

Allan – Marcélia (Cartaxo) foi a primeira a ser convidada, em 2010, quando o filme ainda era uma ideia muito distante. Eu havia trabalhado com ela no meu primeiro curta, Doce de Coco com Soia Lira, que também está em Pacarrete. Zezita Matos é uma atriz que sempre admirei, assim como João Miguel. Do Ceará temos Edneia Tutti e Débora Ingrid, que também atuaram em curtas meus. Rodger Rogério e Samya de Lavor são dois nomes queridos do Ceará. Eu tive um elenco muito feliz.

O filme fez uma bela carreira em festivais nacionais e internacionais. A que você credita essa receptividade tão grande dentro e fora do País?

Allan – O filme nos convida a viajar a Russas, uma cidade do interior cearense que poderia ser uma cidade qualquer do mundo. Pacarrete tem seu modo de vida à la francesa e a França e seu estilo são conhecidos por todos. Há muita empatia por esta bailarina perdida no universo.  Muito de nós nos sentimos um peixe fora d’água em diversos momentos da vida. Então, assistir a Pacarrete nos convida a esta emoção. Além disso, os outros personagens são carismáticos.

“Muito de nós nos sentimos um peixe fora d’água em diversos momentos da vida. Então, assistir a Pacarrete nos convida a esta emoção”

Pacarrete estava com estreia nacional agendada para o circuito comercial de salas, antes da pandemia. Como está sua expectativa para essa pré-estreia online agora?

Allan – Está altíssima, porque assim, nesta pré-estreia online conseguimos chegar ainda mais longe do que chegaria na estreia nos cinemas. O filme, apesar de ficar online só dois dias, 25 e 26 de junho, nesta fase de lançamento, pode ser conferido em todo o Brasil. É um filme popular, que pode e deve ser assistido Brasil adentro. Estou feliz.

Como você avalia o atual estado da produção cinematográfica no Brasil?

Allan – Uma sensação de luta desgastante. Todo dia tendo que reafirmar a importância e a necessidade da arte. E todos os dias tentando encontrar formas de sobrevivermos – de manter o significado de quem somos e do que fazemos. Uma nação séria protege seus artistas e se orgulha deles, pois a arte sempre conta a história de seu povo. A situação da Cinemateca (Brasileira), por exemplo, é de chorar. E dói muito pelo fato de tudo isso ser proposital. É uma revelia planejada, para nos enfraquecer, desmoralizar. Sofremos censura, tentam nos matar no cansaço. Vai passar. E vamos continuar contando histórias.

“Dói muito pelo fato de tudo isso ser proposital. É uma revelia planejada, para nos enfraquecer, desmoralizar. Sofremos censura, tentam nos matar no cansaço. Vai passar. E vamos continuar contando histórias”

Deixe uma resposta