“Escrevo sobre homossexualidade porque é uma importante parte de mim”

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Romancista, contista e dramaturgo, Roberto Muniz Dias tem um obra literária que começou abordando diversos aspectos da homossexualidade masculina e hoje passou a tratar do que chama de homossociabilidade, “em que personagens LGBT são apenas a composição heterogênea de nossa sociedade”.

Mestre em Literatura pela Universidade de Brasília (UnB) e doutorando também em Literatura pela Universidade Federal do Piauí, seu estado natal, o escritor concedeu entrevista exclusiva ao site, por email, onde fala de sua trajetória e influências, do papel da literatura nestes tempos tenebrosos que passamos, de seu trânsito entre o romance e a dramaturgia e da sua militância LGBT (XYZ). Roberto Muniz Dias também liberou para o site um trecho de sua peça teatral A Bacia de Proust (que o leitor confere após a entrevista) e clicando aqui, você assiste à íntegra do espetáculo, gravado em Teresina (PI).

Como você define sua escrita?

É uma escrita, autoral, pessoal, filosófica que procura entender quem sou, quem é este outro de mim e o Outro na humanidade. Há uma eterna busca das personagens que revelam mais do mundo do que de mim mesmo. Antes errática, o livro que se escrevia por si mesmo, agora, por conta do teatro, me faz ser mais disciplinado. Tento ser linear, mas acabo fugindo deste padrão.

Quais são suas principais referências literárias?

Certamente, os grandes clássicos. Dante, Balzac, Allan Poe, José de Alencar, Clarice Lispector, Machado de Assis, as coleções de clássicos de bolso da Ediouro e da Vagalume entre muitos outros contemporâneos.

E para além da literatura, quais suas principais influências em outras artes?

Gosto muito de teatro e cinema. Também pinto por diletantismo. Gosto muito dos pintores renascentistas e dos modernos. Picasso, Chagal, Tarsila. Já cinema a lista é bem extensa. Gosto dos grandes clássicos Noir até animes adultos (não yaoi ou deste gênero), mas com traços mais realistas.

Sua obra, basicamente, é dividida entre literatura e dramaturgia. Para você são processos criativos diferentes? Ao ter uma ideia para um novo trabalho, como você define se será um romance, um conto ou uma peça?

Antes tudo ficava entre o conto e o romance. E por muito tempo foi assim. Eu pensava na estrutura do romance ao pensar num esqueleto da história, nem sempre me preocupava com a linearidade, me perdia nos flashbacks. Isso necessariamente não é ruim, mas contraria a Poética de Aristóteles e muitos leitores que gostam desta fórmula. Com o tempo fui me envolvendo com a escrita teatral, estudando o trabalho do professor José Sinisterra, do Teatro de Fronteira. Enfim, comecei a incorporar a robustez das personagens com mais descrições e ações dramáticas, isso de alguma forma se passou para a narrativa romanesca. Então, eu diria que embora eu realizasse os dois tipos de escritas, uma alimentava a outra. Por exemplo, meu primeiro livro, Adeus a Aleto, é repleto de flashbacks. Já Uma questão de jeito é um romance de formação nas bases aristotélicas do começo/meio/fim.

Antes, o livro (romance) nascia sempre antes. Até porque o trabalho do professor Sinisterra é da transposição do texto narrativo para o dramático. Eu escrevia uma narrativa para então produzir um texto dramático em cima deste enredo. Agora, os textos nascem já definidos. Eu consigo agora começar sempre uma ideia já sabendo se é romance ou teatro.

Quando um espetáculo teatral é montado, existe um trabalho de recriação do diretor, que traduz as intenções do autor, e nem sempre é fiel às ideias que ele escreveu. Como você lida com essa espécie de “coautoria”?

Sim, isto é muito importante. Muitos textos de minha autoria foram montado de forma ipisis literis, removendo parte do texto por causa do tamanho ou praticidade (economia textual). Eu não tenho problemas com isso. No entanto, dois trabalhos recentes foram feitos com esta coautoria. Um deles é A bacia de Proust, que foi dirigida pelo diretor e ator de teatro, professor Edinho do Monte. Foi um trabalho de colagem textual e criação dramática de grande importância para a montagem teatral. Digo que este trabalho da peça A bacia de Proust foi realizada em colaboração com a tríade: dramaturgo, ator e diretor. Outro diretor que trabalhou nesta coautoria foi Rodolfo Lima, em Entrega para Jezebel. O texto foi implementado pela sensibilidade dele e das atrizes por conta da travestilidade e transexualidade discutida. Claro que em todos os trabalhos a gente tem uma grande discussão sobre como será o projeto. E sou muito agradecido e feliz com os parceiros que fiz neste período. Inclusive, o diretor Emer Lavini também ao dirigir minha peça As divinas mãos de Adam, incluiu uma cena emblemática à peça, que saiu numa reportagem do jornal O Globo, quando da sua estreia no Rio (de Janeiro). A cena é poética: a Pietá só que com dois homens.

“Me lembro das obras de Jorge Amado e ele é apaixonado em descrever as mulheres. Por que, então, as mulheres? Ele deveria ter suas razões”

A homossexualidade masculina é um tema recorrente em seu trabalho. A que se deve essa reiteração temática?

Não recordo agora a resposta de um escritor sobre esta mesma pergunta. Ele, prontamente, respondeu: “Por que não há assunto mais interessante para se falar.” Eu tento me recordar, mas não lembro. Poderia complementar que ao escrever sobre minhas experiências como tal é mais fácil. Mas não é isso, e sim porque isso é uma importante parte de mim. Me lembro das obras de Jorge Amado e ele é apaixonado em descrever as mulheres. Por que, então, as mulheres? Ele deveria ter suas razões. E por muito tempo estas situações íntimas de descoberta, autoaceitação, casamento e amor foram partes importantes do processo de busca que falei no começo. A busca do desejo, da compreensão, do amor, do entendimento. Porém, minha escrita percorre a busca humana. Os últimos textos de teatro têm trazido questões mais gerais, como o abuso infantil, que trato na peça Dorothy, que estava em temporada por estes dias que antecederam à Covid-19. Antes, era uma espécie de militância gay intelectual, trazer representatividade e protagonismo LGBT. Agora, podemos falar de uma homossociabilidade em que personagens LGBTs são apenas a composição heterogênea de nossa sociedade. Mas ainda é importante trazer estas vozes para este cenário de autogestão de suas histórias.

Em uma conversa anterior, você me revelou o desejo de também estender seu trabalho até o cinema, escrever roteiros. Como está esse projeto?

Sim, tenho escrito alguns. Inclusive estou submetendo-os a vários especialistas e concursos casuísticos. Tenho até uma página em que disponibilizei alguns destes roteiros: um curta, um longa e alguns não finalizados. Queria muito realizá-los agora. Mas está tudo parado. No entanto, já tem alguns amigos diretores interessados na parceria.

Realizei cursos me Brasília de escrita cinematográfica, vários deles realizados pelo SESC, alguns com o diretor André Miranda. Leituras são as mais diversas, de grandes roteiristas como Syd Field.

Além de escritor, você também é um militante da causa LGBT+. Como é a sua atuação na militância atualmente?

Eu já fui a muitas paradas. Algumas delas a convite da Secretaria de Cultura de São Paulo, por exemplo, para leituras dramáticas ou mesas de debates; alguns eventos literários onde a questão da ação inclusiva e representativa de obras que dialogassem com estes assuntos relacionados à militância LGBT. A literatura era uma forma de trazer estas pautas para dentro do movimento. Assim pensávamos. Digo isso, porque acho que houve certo esvaziamento dos movimentos neste sentido da valorização da literatura como potente recurso de luta.

Hoje temos os youtubers que têm seu trabalho também de grande importância com estes diálogos jovens, porém a arte salva muitos deles das incompreensões das suas realidades e como se instrumentalizar com o conhecimento das representações literárias.

“A arte salva muitos dos jovens das incompreensões das suas realidades e como se instrumentalizar com o conhecimento das representações literárias”

Tanto no Brasil quanto no mundo, a gente vive dias que beiram o surreal. Qual o espaço da ficção em tempos tão turvos, digamos assim?

Em tempos sombrios que tentam queimar livros, nada melhor do que criar livros, fazê-los florescer em cada esquina. A literatura abre mentes, cria criticidade das coisas e eventos, traz cidadania e civilidade. Tudo que um sistema beirando o fascismo luta contra. A importância da ficção, conjunturalmente, tem salvado muitas pessoas do tédio do enclausuramento em tempos de Covid-19. Porém, em relação aos tempos tenebrosos, ela desanuvia estas nuvens nefastas que têm se avizinhado com promessas de mudança, mas que na realidade são ameaças disfarçadas. A ficção nos ajuda a entender a realidade e o que pode ser um pesadelo.

Para terminar, por que você escreve?

Posso parafrasear Clarice Lispector? “Eu escrevo para não morrer!”

Para conhecer os livros de Roberto Muniz Dias clique aqui

CONFIRA TRECHO DA PEÇA TEATRAL A BACIA DE PROUST

“Pierre: Eu devo estar doente. Por que é sempre assim? Depois que eu faço a merda, fico doente!

Eu não consigo me esquecer do Maurice. Por mais que eu o julgue culpado, não me parece justo. Inconscientemente, eu permiti porque havia desejo. Eu gostava do sexo dele. Mas, também tinha o carinho. Sei lá! Até mesmo quando terminávamos de trepar e ele ficava coçando o saco e lendo o jornal de dias passados distraidamente. Aquela displicência era quebrada, repentinamente, com um beijo no canto do meu olho.

Eu aprendi que as pessoas só podiam dar o que elas tinham, mesmo que eu pudesse dar o dobro. E o problema que eu tinha nessa relação era esta diferença que eu nunca conseguia equacionar.

(Olha para o vômito) Preciso limpar esta sujeira. Mas, já não tenho coragem.

Meus fluidos estão indo embora. Se isto não for morrer, o que será então a morte? Já não suporto o sangue de minhas entranhas…

E a gente não é só isso: fluidos e desejos num corpo que aprendemos todo tempo a controlar? Somos entradas e saídas, chegadas e partidas. 

Mas aí, quando perdemos este controle, tudo desanda. E o amor, que é a parte quase racional do nosso desejo, também pode ser incontrolável. Ficamos reféns do nosso corpo tão frágil.

Mas, ainda enquanto tenho vida, tudo o que me interessa é o sexo. Sem ele, agora, eu sou apenas um corpo ainda mais frágil, atravessado por uma dúvida tão forte quanto desafiadora”.

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