“Não precisamos mais do aval do homem branco para produzir nossas narrativas”

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Diogo Leite é um jovem diretor e roteirista paulista. Formado em Jornalismo. estudou Cinema na Escola de Cinema e Vídeo de Santo André (ELCV) e Dramaturgia na SP Escola de Teatro.  Dirigiu e roteirizou o documentário Esse é o carnaval da superação (2010) e o curta-metragem Attimo (2013). No entanto, foi com Menino Pássaro (2018) que ele ganhou projeção nacional e chamou – muita – atenção. O filme fez uma carreira incrível em festivais e coleciona prêmios.

Só no 42º Festival Guarnicê de Cinema, em São Luís (MA), foram três: Melhor Curta-Metragem Nacional, Melhor Direção e Melhor Atriz Coadjuvante. No mesmo ano, Diogo recebeu o Kikito de Melhor Diretor no 47º Festival de Cinema de Gramado. Sem falar nas premiações internacionais.

Nesta entrevista exclusiva ao site, Diogo conta de onde veio a ideia do filme, comenta a reação do público, fala de seu próximo projeto e analisa a crise pela qual passa o audiovisual brasileiro atualmente.

Como surgiu a ideia de Menino Pássaro, o filme?

Diogo Leite – Fiquei intrigado com uma história de menino negro que morava em uma árvore no bairro de Higienópolis (São Paulo/SP), o fato de ele ser negro causava um temor nos moradores. É um bairro onde a maioria dos negros está identificada com uniformes de serviços, babá, segurança etc. Para mim fazia sentido contar essa história do ponto de vista da branquitude, uma vez que como prega Grada Kilomba no livro Memória de Plantação, que foi minha referência teórica para fazer esse filme, o racismo é um problema dos brancos.

Como você conseguiu viabilizar financeiramente o curta?

Diogo Leite – Esse curta foi financiado com o primeiro edital de curtas da SPCine. Necessário lembrar que é o único de curtas lançado até hoje pela SPCine.

Como o público reagiu ao filme?

Diogo Leite – Há reações diversas. Tem uma parte do público majoritariamente branca que sente raiva e outra que se identifica com o filme. 

Menino Pássaro fez uma excelente carreira em festivais. Você esperava que ele fosse tão bem recebido?

Diogo Leite – Sinceramente, não esperava. Tomei essa dimensão do filme no Festival de Gramado. Foi muito elogiado lá pelo público e pela crítica.

Você já voltou aos sets de filmagem. Qual é seu novo projeto?

Diogo Leite – Foi um projeto que filmei no final do ano passado, o filme chama-se Você tem olhos tristes e conta da história do bikeboy Luan, que enfrenta dilemas da profissão e sonha com um futuro melhor

De onde vieram os recursos para realizar esse novo filme?

Diogo Leite – Com recursos dos prêmios que o Menino Pássaro ganhou no Festival de Duhok, no Iraque, e no Festival de Gramado.

Como você define o seu cinema?

Diogo Leite – Acredito que neste momento quero contribuir para um novo olhar sobre o negro e o papel da branquitude no combate ao racismo.

O audiovisual passa por uma série crise por conta da perseguição oficial do Governo Federal. Como você vê esse momento?

Diogo Leite – É um momento grave, o cinema está respirando por aparelhos. Tínhamos uma política pública que, embora precisasse de ajustes, funcionava. Se conseguiu por meio do Fundo Setorial abarcar outros cinemas, conhecemos outras narrativas para além do exio Rio-São Paulo. Os filmes produzidos no Norte e Nordeste têm muita potência, sobretudo aqueles dirigidos negrxs e LGBTQ+.

Por outro lado, o lobby de homens brancos do cinema reluta em implementar uma política pública de cotas, onde teríamos produtoras negras à frente de projetos. Dá impressão que temos as narrativas potentes e essas só podem ter acesso a volumosos recursos se forem produzidas por empresas gerenciadas por homens brancos em sua maioria. Não precisamos mais do aval do homem branco para produzir nossas narrativas.

Soube agora que o Festival de Brasília corre o risco de não acontecer. Sabíamos que a cultura em geral, e em especial o cinema, seria o grande prejudicado, já que estamos na linha de frente ao governo Bolsonaro.

Nós já passamos por isso. O cinema brasileiro é feito de fases, estávamos na fase dos editais, do pós-Collor. Acho que  ficamos anestesiados com os editais e, por conta disso, não viabilizamos outras formas de financiamento dos filmes. Esse é um momento para pensarmos para onde queremos ir com o nosso cinema. 

Não esquecendo que, sim, o governo deve dar apoio ao cinema brasileiro sobretudo para quem está começando e para filmes que normalmente não têm espaços da grande mídia.

Pessoalmente, acho que com esse governo que aí está, que tem características neofascistas e neonazistas, não há diálogo possível.

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