A enorme falta que Gilberto Braga já faz

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Foi-se a elegância. Com a morte de Gilberto Braga, aos 75 anos, na última terça-feira (26), a teledramaturgia brasileira perdeu um de seus mais brilhantes autores. Porém, mais que isso, perdemos todos um olhar único sobre a classe média e a elite brasileiras. Mais que qualquer um de seus pares, Gilberto Braga dissecou, com talento único, o way of life destes estratos sociais. E esse olhar ímpar já faz muita falta.

Se você puxar pela memória, certamente se lembrará de várias obras icônicas assinadas por Gilberto Braga. Dancing Days, Vale Tudo, O Dono do Mundo, Celebridade, Paraíso Tropical… Em todas estas, o autor nos brindou com personagens inesquecíveis, vilãs e vilãos apaixonantes, cenas icônicas, tramas muito bem elaboradas. E o tal olhar, ao mesmo tempo impiedoso e cheio de carinho, sobre o pessoal do grand monde.

Ainda que não poupasse a mão na vilanice de seus antagonistas, Gilberto Braga nunca os desproveu de humanidade. E talvez aí resida um dos segredos de seu grande sucesso. Além de torna-los factíveis, verossímeis, tal estratégia findava por aproximá-los do espectador, ainda que a contragosto e sub-repticiamente.

Tão sub-repticiamente que pouco nos dávamos conta. Mesmo uma vilã imperdoável como Odete Roitman (trabalho irretocável de Beatriz Segall) tinha seu momento de “gente”, como mostra a sequência inesquecível em que a poderosa executiva da TCA arde de desejo assistindo a um vídeo pornô, ou outra, em que ela apanha do namorado garotão e fica com um olho roxo.

Como não reconhecer como legítimas as motivações de Yolanda Pratini (Joana Fomm) que fazia de tudo para separar a irmã Júlia (Sonia Braga) da filha, Marisa (Gloria Pires), em Dancing Days?

Aliás, é nessa novela que Gilberto inaugura uma cena que se tornaria um clássico em sua obra: o acerto de contas entre protagonista e antagonista femininas aos tapas. Impossível citar essa cena e não lembrar da surra que Maria Clara Diniz (Malu Mader) dá na “cachorra” Laura Prudente da Costa (Claudia Abreu) em Celebridade, no banheiro de uma boate.


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Voltando a Dancing Days, e falando na sofisticação que abre este texto, a novela exibida pela primeira vez em 1978 e que marca a estreia do autor em horário nobre tem uma sequência icônica reveladora do biscoito fino que Braga oferecia a seus espectadores. Em uma festa na casa de Julia, ela e a irmã Yolanda “duelam”, trocando desafetos e ofensas subliminares, usando como desculpa pedidos de canções à cantora Gal Costa, que gravou participação especial na novela. Impagável e inesquecível.

Assim como um diálogo em Água Viva, que Braga assinou junto com Manoel Carlos, em que uma personagem se refere a uma mulher dizendo que ela “parece uma personagem saída de um filme de Visconti”. Nessa novela, aliás, há o ajuste de contas entre a heroína Lígia (Betty Faria) e sua falsa amiga Selma (Tamara Taxman), também no banheiro de uma casa noturna.

Mais que revelar o comportamento de nossas elites, com sua obra Gilberto Braga colocou uma lupa sobre a sociedade brasileira. Através de suas novelas e séries, conseguimos nos enxergar na tela da TV, num exercício de espelhamento nem sempre confortável, mas implacável e verdadeiro. Em Anos Rebeldes, a cena em que a guerrilheira Heloísa (Claudia Abreu) abre a blusa e mostra para o pai, o empresário apoiador da ditadura militar Fábio (José Wilker), as queimaduras de cigarro pelo corpo decorrentes de uma sessão de tortura ainda hoje tem a potência de um soco no estômago. E está mais atual que nunca.

A última novela de Gilberto Braga que foi ao ar, Babilônia (2015), causou um rebuliço logo no capítulo de estreia por exibir um beijo na boca entre o casal vivido por Fernanda Montenegro (Teresa) e Nathália Timberg (Estela), então octogenárias, a partir disso sofreu boicote sistemático puxado por fundamentalistas religiosos. Com medo da reação dos conservadores, a Rede Globo interferiu na trama, mudando perfis de personagens potencialmente polêmicos (a inicialmente ninfomaníaca Beatriz, vivida por Gloria Pires, tornou-se uma mocinha quase romântica, por exemplo). Nem preciso dizer que o resultado desandou de todo.

Como uma pitonisa, com Babilônia Braga anteviu muito dos dias que vivemos hoje, com o avanço do extremo conservadorismo, do falso moralismo, das realidades forjadas de acordo com os interesses dos que estão no poder, quer seja nos púlpitos ou nos Palácios. Um tempo que ainda não encontrou tradutor à altura de sua complexidade. Mal partiu, Gilberto Braga já faz muita falta.

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