A experiência da Incerteza

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Deixai toda a esperança, Vós que entrais!

O aviso afixado no portão do inferno do clássico Divina Comédia, de Dante Alighieri, pode muito bem servir de conselho para o espectador do filme Meu Pai (The Father), que estreia nesta semana. A sentença só carece de uma pequena adaptação. Substituindo-se “esperança” por “certeza”, tem-se um guia preciso para atravessar o longa, que marca a estreia do dramaturgo francês Florian Zeller no cinema.

Definitivamente, não há certezas ao longo dos 96 minutos do filme, protagonizado por Anthony Hopkins, em uma das melhores atuações de sua carreira.

O ator britânico dá vida a Anthony, 81, personagem com quem compartilha o mesmo nome e idade, e que mora sozinho num apartamento em Londres. Julgando-se autossuficiente, recusa todas as cuidadoras que sua filha, a dedicada Anne (Olivia Colman), consegue para tratar dele. Até que se cria um impasse, quando Anne decide mudar para Paris por causa do namorado e não terá mais como lhe dar atenção nem visitá-lo todos os dias.

Este é o marco inicial da trama, que traz um ponto de vista surpreendente para a clássica situação das histórias que abordam a demência senil. Em vez de observar a debilidade do raciocínio, a perda da memória e a confusão mental de alguém acometido pela doença, o espectador é convidado a vivenciá-las, a se colocar na pele – e na mente – de Anthony e ver o mundo a partir de sua perspectiva.  Daí, a experiência da incerteza que dá título a esta resenha.

No labirinto circular que se revela sua mente, Anthony ora constrói, ora descontrói situações e interações com o mundo exterior (e aqui nada se detalha para evitar o anúncio de spoilers que possam atrapalhar a experiência fílmica de quem assistir a Meu Pai).

Como se montasse um quebra-cabeças em que faltassem peças ou tentasse ler um romance com várias páginas arrancadas a cada capítulo, Anthony se esforça para dar sentido ao que consegue aperceber do que lhe acontece em volta.

E o único companheiro que tem nessa jornada somos nós, os espectadores, testemunhas privilegiadas – e consequentemente também angustiadas – de como sua mente organiza o caos que começa a se apoderar dela.

De fato, não é uma experiência fácil assistir ao filme. Até porque está longe de ser simples se permitir a uma prática tão intensa de entendimento do que não é aparentemente compreensível, da percepção do outro em várias camadas, de uma empatia profunda, enfim. Mas se incômodo existe e é real deve-se não só ao tema como também à excelência com que o filme foi executado.

Oscar

Uma excelência que lhe garantiu indicação para seis Oscars: Melhor Filme, Melhor Atriz Coadjuvante para Olivia Colman, Melhor Roteiro Adaptado para Christopher Hampton, Melhor Edição e Melhor Design de Produção, além de, claro, Melhor Ator para Anthony Hopkins.

Este último, merecidíssimo. Hopkins já recebeu seis indicações à estatueta dourada, das quais quatro por Melhor Ator (Além de Meu Pai, em 2021, Nixon, em 1996, Vestígios dos Dia, em 1994, e O Silêncio dos Inocentes, em 1992, até agora seu único Oscar) e duas por Ator Coadjuvante (Dois Papas, em 2020, e Amistad, em 1998).

A interpretação que Hopkins dá ao protagonista de Meu Pai é estupenda! E, sem dúvida, este é um dos principais méritos do filme. Difícil imaginar que Florian Zeller conseguisse chegar aonde chegou neste seu filme de estreia com outro ator encabeçando o elenco.

Não à toa, o diretor adaptou o nome e a idade do personagem para coincidirem com os de Hopkins, o ator de seus sonhos para o papel, segundo revelou em entrevistas.

No entanto, é pouco provável que sua atuação em Meu Pai recebe a cobiçada estatueta da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas. O favorito disparado na categoria Melhor Ator deste ano é Chadwick Boseman, por seu trabalho em A Voz Suprema do Blues.

Morto no ano passado, aos 43 anos, vítima de um câncer, Boseman vem arrastando importantes troféus póstumos nesta temporada de prêmios por seu último trabalho. Levou o Globo de Ouro, o Critics Choice Awards, e no último domingo garantiu o SAG Awards, a premiação do sindicato de atores dos Estados Unidos. Em todos eles, concorria com Hopkins.

Outra forte indicação de Meu Pai é Melhor Roteiro Adaptado, num trabalho primoroso assinado pelo experiente Christopher Hampton (Ligações Perigosas e Desejo e Reparação) em parceria com o novato no cinema Florian Zeller, autor e diretor da peça de teatro que deu origem ao filme.

É impressionante como a tradução criativa de uma linguagem para a outra executada pela dupla é eficiente. Apesar de ser um filme onde os diálogos têm um peso enorme e de se passar praticamente em uma única locação, Meu Pai fica longe de ser mero “teatro filmado”. Mérito também da edição, muito bem realizada.

Sem falar na excelência de Olivia Colman, numa atuação contida e irretocável como Anne, a filha que é levada ao olho do furacão pela doença do pai. Como já recebeu o Oscar de Melhor Atriz em 2019 por A Favorita, suas chances podem diminuir, além da concorrência estar bem acirrada. Glenn Close, por exemplo, está no páreo, com sua oitava indicação à estatueta, sem ter levado nenhuma até agora. O que é uma injustiça que merece ser reparada, convenhamos.

Independente dos Oscars que consiga levar para casa, ou não, Meu Pai é um filme que merece ser visto. Não só pelas suas qualidades técnicas, mas principalmente pela sua capacidade de nos causar perturbação. 

SERVIÇO

Meu Pai estreia nesta quinta-feira, 8, nos cinemas nas cidades do Rio de Janeiro, Brasília e Florianópolis e na sexta, 9, nas plataformas digitais Now, Itunes (Apple TV) e Google Play estará disponível para compra. A partir do dia 28 de abril, Meu Pai ficará disponível também para aluguel, nessas plataformas e ainda na Sky Play e na Vivo Play.

Confira o trailer:

1 comment

  1. Sua primorosa resenha me deixou ainda mais curioso em assistir ao Meu Pai. Torcendo para que mais um Oscar venha para o querido Anthony Hopkins. Mas se não vier, certeza que será mais um grande filme com a interpretação marcante deste ator formidável.

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