“O grande projeto do governo atual é a implosão, a destruição do Brasil a qualquer custo”

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Em entrevista exclusiva, concedida diretamente de Berlim, onde está radicado há mais de dez anos, o cineasta Karim Aïnouz demonstra indignação. Não só com o Governo Federal pela maneira como conduz o País durante a pandemia de Covid 19 que paralisou o mundo, mas também com o empresariado que lhe dá sustentação. “São pessoas que têm que ser interpeladas. Tem que ficar publicamente o apoio que estão dando ao genocídio que está acontecendo no Brasil”.

Na conversa, mediada pelo jornalista e cineasta Émerson Maranhão na última terça-feira (21), Karim também falou de seu novo projeto, Argelino por acaso, que está sendo montado; do filme Viajo porque preciso volto porque te amo; e sobre o papel das narrativas no mundo durante e pós-pandemia.

A entrevista foi realizada dentro da programação do festival Gente é pra brilhar… não pra morrer de fome, iniciativa para arrecadar dinheiro, alimentos e produtos de higiene, para os trabalhadores da cultura do Ceará, impedidos de trabalhar pela pandemia. O festival segue até o próximo domingo (26) e ao fim da entrevista você encontra as informações sobre como e onde fazer suas doações.

Em parceria com o Festival, o site publica a íntegra da entrevista (colaborou Dalwton Moura).

Karim, como você está passando pela pandemia?

Karim Aïnouz – Ela teve um pico em março, abril (na Alemanha). Agora as coisas já estão um pouco mais controladas. Mas é difícil falar que você está passando pela pandemia com um pouco mais de tranquilidade, quando você pensa no que está acontecendo no Brasil, que é uma tragédia sem precedentes na nossa história. É muito difícil cada dia de manhã que acordo e tento imaginar como atravessar uma situação dessa, o que podemos fazer. Estou longe, mas tentando. Por isso estou fazendo essa live agora. Sempre que posso falar publicamente sobre minha indignação sobre como isso está sendo conduzido por um presidente assassino mesmo. É isso que a gente tem: um presidente genocida que está tocando o País para um lugar que a gente nunca viu na história. Para mim é difícil dizer que estou passando com tranquilidade, tão longe, num lugar de privilégio. É até difícil de falar. Eu estou muito preocupado com o que está acontecendo o Brasil e com outros países, mas o Brasil é um caso extremo. Fico muito preocupado com a forma como alguns estados, e quando digo estados são governos, estão lidando com a pandemia. É difícil você estar vivendo uma situação, mesmo à distância, que seja tão triste, tão grave, sem você ter uma empatia por ela.

“É isso que a gente tem: um presidente genocida que está tocando o País para um lugar que a gente nunca viu na história”.

Como os alemães veem a gestão do Bolsonaro durante essa crise?

Karim – Com perplexidade. Com abjeção, porque é um presidente abjeto mesmo. Então existe uma perplexidade gigante sobre o que está acontecendo. Já passamos a percepção do absurdo. Se tem aqui uma percepção criminosa mesmo do que está acontecendo com a gestão, e não só com a gestão federal, mas de outros poderes com o que está acontecendo com a pandemia. Um momento muito perigoso, como o que aconteceu na semana passada, quando houve essa notícia de que talvez ele estivesse infectado. Que eu acho que, na verdade, é uma grande mentira. Mesmo que não seja mentira, a maneira que ele lidou com isso realmente foi motivo de escândalo aqui fora. Como é que ele pode de fato, nesse momento, estar fazendo propaganda de um remédio comprovadamente nocivo? É uma coisa de perplexidade muito grande e muito séria. É muito evidente a maneira como isso está sendo conduzido no Brasil, hoje em dia. E eu digo isso não só com relação à repercussão na Alemanha, mas também em outros países que têm lidado com mais responsabilidade em relação à Covid e à pandemia.

A vida já está voltando ao normal aí na Alemanha?

Karim – Está voltando sim, ao “novo normal”, vamos dizer assim. Ao antigo normal não vamos mais voltar, ainda bem. O comércio está aberto, as escolas não completamente. Mas com muita responsabilidade, com uso de máscaras e com monitoramento. Tem uma monitoração muito no corpo a corpo e muito no detalhe. Permite um controle maior. Aqui se mede muito a contaminação. Existe um controle muito grande dos casos novos e uma monitoração muito precisa. E você tem também uma primeira ministra que tem lidado de maneira muito lúcida e muito transparente. Ela é uma cientista. Isso também torna o pacto social mais calmo. As pessoas sabem que têm alguém com responsabilidade tomando conta de um caso tão grave como a Covid. Isso dá uma sensação de que, de fato, a gente passou de um período de crise aguda, que foi o período que a gente teve aqui entre março e abril. Na Alemanha nunca houve um lockdown como em outros países, com o controle de horário de sair de casa. Existiu um certo pacto. Isso permitiu que se lidasse com a crise com um grau de ansiedade bem menor que em outros lugares, inclusive da Europa.

“Existe uma obsessão de se destruir o Brasil. O grande projeto do governo atual é o projeto de implosão, de destruição do Brasil a qualquer custo”.

O Governo Federal já vinha promovendo um aniquilamento da produção cultural brasileira. E o cinema foi um dos alvos mais fortes. Você deve ter acompanhado daí a situação da Cinemateca, que chegou a uma situação surreal, de a Cinemateca ir para Brasília. O Governo do Estado de São Paulo quis abraçar a Cinemateca, a Prefeitura também, e ele não admite que a Cinemateca seja salva. Você consegue imaginar alguma razão para tanto temor, ou tanto ódio do cinema?

Karim – Eu acho que o ódio, na verdade… Tem um artigo interessante, que saiu semana passada, do João Moreira Sales. “A morte é o grande lema do governo Bolsonaro”. A morte, a destruição, o desmonte, esse fascínio pela morte, pelo fim. É curioso. Os sites que a gente vê que seguem Bolsonaro é com a hashtag “com Bolsonaro até o fim”. Existe uma obsessão de se destruir o Brasil. O grande projeto do governo atual é o projeto de implosão, de destruição do Brasil a qualquer custo. Então sim, estou acompanhando o que está acontecendo com a Cinemateca, é mais um crime de responsabilidade, um crime mesmo. Um crime o que está acontecendo. Agora, o que fico mais chocado… Porque não me surpreende um sujeito como o presidente da República querer fazer isso. Isso para mim é absolutamente coerente com o comportamento que ele vem tendo nos últimos 35 anos, um comportamento de destruição permanente, mas o que fico mais chocado é que esse cara está no poder não só porque foi eleito, mas porque tem apoio de grande parte do empresariado brasileiro. Então o que a gente tem que fazer agora é denunciar os cúmplices. Que o Bolsonaro é um criminoso, um maníaco, que queimou um quartel quando era capitão e foi expulso por causa disso, a gente sabe disso há muito tempo. Agora, como é que a gente permite que um criminoso possa ser candidato a presidente da República? Quem são as pessoas que estão atrás desse cara? Então o caso da Cinemateca é muito sério, mas mais sério do que tudo é a situação da vida do Brasil. Me perguntaram, numa live outro dia, o que acho da situação do cinema. Eu acho que a situação do cinema é irrelevante, porque é a situação da vida do brasileiro que é muito chocante. O número de pessoas morrendo todo dia, mais de mil, em média. Um negócio nunca visto na história brasileira! E o que a gente vê é um silêncio, de proprietários de bancos, de proprietários de grandes empresas. É muito chocante quando a gente está passando por isso, e a gente tem que começar a apontar também quem são os cúmplices desse genocídio. Porque o que está acontecendo não é muito mais, muito menos que um genocídio. O que está acontecendo com a Cinemateca brasileira é um detalhe. Um detalhe trágico, realmente muito preocupante, mas eu queria saber o que está acontecendo é com esses números que não caem, com esse tipo de comportamento absolutamente irresponsável, criminoso e que não é só dele. Tenho vontade de fazer uma pesquisa para saber quais as empresas que realmente apoiam o governo Bolsonaro, porque essas empresas deviam de fato, no mínimo, sofrer um boicote radical. É mais um ato criminoso, de vários atos criminosos que esse governo vem fazendo, desde o momento em que foi instituído.

“Tenho vontade de fazer uma pesquisa para saber quais as empresas que realmente apoiam o governo Bolsonaro, porque essas empresas deviam de fato, no mínimo, sofrer um boicote radical. É mais um ato criminoso, de vários atos criminosos que esse governo vem fazendo, desde o momento em que foi instituído”.

Uma questão louquíssima sobre isso é que, aqui no Brasil, esse número de mortos já foi normalizado. Hoje você fala de 1.000 mortos por dia, como se fossem dois ou três…

Karim – É uma loucura! A gente continua falando em números. Você tem um genocídio da população pobre, da população negra, da população subalterna. É isso que você tem constantemente. Acho uma loucura quando a gente está aqui fora e perguntam qual a percepção que se tem. Por isso dou tanta importância a fazer uma live como essa. Quando a gente abre grandes jornais brasileiros, veículos da grande mídia brasileira, jornais mais importantes, mais vistos, o que é a capa desses jornais? Não são as pessoas que estão sendo assassinadas por essa irresponsabilidade desse governo. Não só estão morrendo mais de mil pessoas por dia, mas é uma pandemia sobre o homem invisível. O Brasil que tem sido invisível durante muitos séculos. Acho muito sério! Interpelo o tempo inteiro. Você vê um gesto como o do New York Times, que teve os nomes das vítimas, na capa. É como você falou, parece que há uma normalização das mortes. Tem até um site que está colocando isso. Isso é que devia ser a capa dos jornais! A gente passa por essa situação, como se fossem números. Me lembro dos refugiados fugindo da Síria em 2015, fugindo e foram acolhidos pela Alemanha, e lembro da cobertura da mídia como “um milhão de refugiados”. Um milhão de refugiados são um milhão de vidas ceifadas dentro de um lugar que tinha uma guerra. Está na hora da gente interpelar a grande mídia. Tem um quadro todo domingo no Fantástico (TV Globo) onde se fala isso, mas está na hora de a gente invadir a Internet com testemunhos, porque é muito sério isso. E isso o mundo está vendo, que a normalização da morte no Brasil é algo que a gente nunca viu. E quando você pergunta como estou passando pela pandemia, é uma tortura você ver isso acontecendo e tentar imaginar como você pode inferir alguma mudança nessa situação. É muito, muito sério! Eu fiquei satisfeito de ver que o presidente está sendo indiciado pelo Tribunal de Haia, por crime contra a humanidade, porque é isso que a gente está vivendo no Brasil hoje.

“Não só estão morrendo mais de mil pessoas por dia, mas é uma pandemia sobre o homem invisível. O Brasil que tem sido invisível durante muitos séculos”.

Quando você fala nos cúmplices, isso para quem está aqui é muito claro. Teve uma entrevista do presidente de uma das maiores investidoras, de um dos grandes fundos de investimento no Brasil, que disse que a Covid já foi controlada. “O problema agora é a favela”. Ou seja, essa classe média, média alta, que é o que interessa para essas pessoas, já estaria “fora de perigo”. Um número expressivo desses mil mortos por dia é de preto e pobre. Vidas invisíveis que não importam mais.

Karim – Claro! Não dá para a gente falar disso sem indignação, sem raiva. Como é que alguém que é dono de uma grande empresa pode estar silencioso num momento desse? É hora de a gente falar mais alto e interpelar não só o culpado disso, mas os cúmplices do culpado pelo que está acontecendo, porque ele não está fazendo isso sozinho.

“Quem está doente é a elite que está, de alguma maneira, tornando possível essa tragédia que a gente está vivendo”.

Karim, nas últimas semanas, a gente tem passado por uma experiência curiosa no Brasil. Saimos do lockdown, começamos a voltar a uma “nova normalidade”. Mas as pessoas, boa parte delas se recusa a usar máscaras. Teve duas situações emblemáticas, que você deve ter acompanhado. Uma no Leblon, um senhor que disse “Cidadão, não, eu sou um engenheiro, melhor que você”. E outra no último domingo, com um desembargador na praia de Santos, que rasgou a multa na cara do guarda municipal que o multou por estar sem máscara. Então são indícios de uma sociedade adoecida. Não é só esse comandante…

Karim – Você está certíssimo. É uma sociedade que, infelizmente, a gente tem que olhar para ela. Uma sociedade cuja elite é uma elite psicopata. É a única maneira como a gente pode descrever a elite brasileira. Não é mais uma elite sem empatia; é psicopata. Na hora que você vê um desembargador fazer isso, como fez em Santos, é uma pessoa que tem uma incapacidade de empatia, na largada. É a definição do psicopata. Você tem ali um agente civil tentando protegê-lo de uma situação de perigo de saúde, e ele não tem nenhuma empatia com isso. Pelo contrário. Outra coisa muito importante que a gente possa lembrar nesse momento, além de interpelar os cúmplices, é a gente se olhar no espelho um pouco, como sociedade. Não acho que é uma sociedade doente no sentido geral, porque acho que o pobre, o preto, o subalterno, aqueles que estão sendo oprimidos por essa elite não estão necessariamente doentes. Quem está doente é a elite que está, de alguma maneira, tornando possível essa tragédia que a gente está vivendo. E é isso. Eu queria falar muito a palavra “indignação”. É muito complicado a gente não acordar minimamente indignado pela maneira como está sendo administrada essa tragédia no Brasil. É algo histórico.

“É muito complicado a gente não acordar minimamente indignado pela maneira como está sendo administrada essa tragédia no Brasil”.

Tem uma elite econômica que apóia esse presidente, que é contaminada por essa total falta de empatia. É autoexplicativo isso. Só é possível apoiar esse governo se você não tem a menor possibilidade de empatia no seu radar.

Karim – O que muitas vezes se classifica como psicopatia. É uma tragédia! É importante falar e interpelar os culpados por essa tragédia, mas também começar a celebrar quem está de fato resistindo a essa tragédia. O esforço que vocês estão fazendo com esse festival é algo absolutamente digno. A gente tem que celebrar os trabalhadores da saúde, que estão no front, realmente. Parabéns a essas pessoas, pela determinação e grandiosidade desses profissionais. A gente tem que celebrar os pesquisadores, que estão lutando para encontrar uma vacina. Quando falo das capas dos jornais, não quero ver as capas com dois bandidos, como Bolsonaro e o que se chama de juiz, mas que não é juiz, aquele cidadão Moro. Isso é um crime! Quem devia estar na capa dos jornais é quem são os profissionais da Fiocruz, que estão lutando para encontrar uma solução para essa pandemia. Quem são as enfermeiras que ganham tão pouco e lutam todo dia para salvar vidas. É um país tão cheio de heróis, e a gente fica celebrando os monstros. A mídia brasileira realmente tem que se perguntar. São tantos heróis. Quem está trabalhando nos hospitais públicos, cuidando das pessoas que estão entre a vida e a morte. É importante a gente interpelar, mas também a gente celebrar. E eu queria fazer aqui uma manifestação muito séria contra empresas como a Centauro, a Havan, a BioRitmo, a SmartFit, como alguns enormes bancos brasileiros que são cúmplices do governo. É muito importante que a gente comece a dar nome aos bois, não ficar só falando do monstro que foi eleito presidente do Brasil. Boicote à Centauro, bociote à Havan, boicote à SmartFit, boicote à BioRitmo, boicote à Riachuelo, boicote à Madero! São empresas criminosas, que estão apoiando o genocídio que está acontecendo no Brasil. E as grandes instituições financeiras que estão apoiando esse governo. A gente estar calado num momento desses é a gente ser cúmplice do que está acontecendo. Estar calado é estar do lado do opressor.

“A gente estar calado num momento desses é a gente ser cúmplice do que está acontecendo. Estar calado é estar do lado do opressor”.

A gente está vivendo um momento único. A pandemia anterior de que se tem notícia é a gripe espanhola, no começo do século XX, mas que não tem registro audiovisual. Você consegue vislumbrar como o cinema pode registrar esse momento?

Karim – Acho tão difícil registrar um momento que a gente não sabe bem qual é. Uma coisa que ficou muito clara neste momento no mundo é o quão importante é o ato de narrar. Quais narrativas vão permanecer. O ato de narrar é um dos que têm nos salvado minimamente da loucura no meio dessa pandemia, quando você pensa que pode ouvir uma história sobre outra coisa. A ficção tem um papel importante. Mas como é que o cinema, as artes narrativas estão lidando com isso? A resposta que daria é que todos os projetos que tenho que são no passado me parecem projetos que podem ter uma força muito grande. É difícil dizer. Tenho um projeto que é contemporâneo, e a pergunta que me faço todo dia, quando vou pro roteiro, é se ele se passa antes ou depois da pandemia. Vou filmar com máscara? Vou filmar sem máscara? Então, não sei. Quando a gente está no meio do furacão a gente não tem o equilíbrio de falar do furacão. Outra coisa que queria pensar é como falar do futuro e do passado. O presente a gente está muito dentro dele, para falar com equilíbrio. Não é nem com distanciamento. Com equilíbrio. Agora uma outra coisa curiosa é que um dos produtos mais vendidos na Europa, no começo ou foi no final da Segunda Guerra, não lembro, foi batom vermelho. Algo que permitiu escapar do pesadelo. Eu não me interesso mais muito em fazer filmes, hoje em dia, falando de distopia, de desesperança. Até fiz um debate este ano no Festival de Berlim sobre esperança, não como uma coisa ingênua, leve, mas de esperança como ato político. Talvez no momento seja mais produtivo a gente imaginar o futuro e aprender com o passado que olhar de cara para o presente, que é muito turbulento neste momento. Fico sempre pensando que história nos permita imaginar o futuro, imaginar o novo normal, que certamente não será o que a gente viveu antes dessa pandemia. Imaginar como é que a gente pode aprender com o futuro talvez seja um lugar mais produtivo para mim, neste momento, quando a gente pensa em cinema, em história, em artes narrativas e personagens.

“Uma coisa que ficou muito clara neste momento no mundo é o quão importante é o ato de narrar. Quais narrativas vão permanecer. O ato de narrar é um dos que têm nos salvado minimamente da loucura no meio dessa pandemia”.

Existe uma corrente de pensamento, de pessoas que acham que a pandemia vai deixar um legado quase que revolucionário para a humanidade. Uma perspectiva muito otimista, de que seremos menos egoístas, mais generosos, que vamos compreender mais o outro. Você consegue enxergar isso?

Karim – O que consigo enxergar é uma coisa importantíssima que aconteceu nos últimos meses, o movimento sobre as vidas negras e sobre o que aconteceu nos Estados Unidos com a morte do George Floyd. A pandemia catalisou o problema gigante do racismo. O capitalismo, não sou exatamente um cara pessimista, mas não dá para ser ingênuo neste momento, ele está desesperado para conseguir recuperar os lucros que perdeu. Então tem algo muito violento que a gente está vivendo e que a gente vai viver no próximo ano. Mas, ao mesmo tempo, a gente não teria tido a repercussão do que aconteceu com George Floyd se não fosse a pandemia.

Então, é caso a caso, é momento com momento. Claro que tem momentos em que prefiro falar de algo mais positivo, mas às vezes tenho certa dúvida de até quando, até onde. Tenho um medo assim. Foi importante essa parada que o mundo deu, mas fico olhando para 2021 e tenho a sensação que o Capital quer que 2021 sejam dois anos em um, para recuperar o que perdeu. Mas a crise, enquanto crise, é sempre muito importante para gente poder repensar o que a gente está vivendo, o que a gente está pensando. Tenho a sensação de que a gente vai sair com uma coisa muito importante. Outras vezes não. Vi uma coisa na Internet: para que trabalhar tanto? Para que lucrar tanto? Para que produzir tanto assim? Será que a gente não pode fazer com menos? Esse tipo de reflexão pode radicalmente fazer repensar o modo com a gente vive. Vai acontecer. Agora a grande questão é qual a escala nisso? E como é que isso vai repercutir no futuro.

Importante também a gente ter uma perspectiva histórica um pouco mais equilibrada. O mundo já passou por tantas pandemias. Fico pensando na Peste Bubônica, no século XVI, ali, momento em que a gente vê que todo mundo pode morrer. A religião dizia que alguns eram eleitos, e outros não. Todo mundo virou humano. O que essa pandemia talvez tenha feito é provar que todo mundo é humano, mas que existe um abismo econômico e social entre os seres humanos que é aberrante. Na hora que isso fica explícito, quem são os mil mortos de hoje? De que classe social são? De que etnia são? Onde estão? O que essa pandemia tenha talvez tornado mais claro é o quanto a gente vivem numa sociedade que existe a partir de uma estrutura de concentração de renda que é imoral. Se a gente começar a questionar isso, já é produtivo. Quem são essas pessoas que faleceram hoje? Por que elas faleceram? Se a gente começar a falar disso, talvez a gente comece a se perguntar sobre o fundo dessa questão da exclusão social e da concentração de renda. Algo absolutamente absurdo.

“O que essa pandemia talvez tenha feito é provar que todo mundo é humano, mas que existe um abismo econômico e social entre os seres humanos que é aberrante. Na hora em que isso fica explícito, quem são os mil mortos de hoje? De que classe social são? De que etnia são? Onde estão?”

A gente vai exibir no Festival Viajo porque preciso, volto porque te amo (2009). Um filme seu, que eu particularmente gosto muito. Queria que você falasse um pouquinho da história desse filme, que é um desdobramento de outro projeto. Conta um pouquinho do filme.

Karim – O “Viagem”, é engraçado falar dele agora, num momento em que a gente está vendo que o audiovisual está sendo ceifado. É um filme que é uma colaboração do Marcelo Gomes, diretor, querido amigo, fizemos juntos com uma equipe muito querida. A gente filmou em 2000, 1999, com muita curiosidade como seria o século XXI no sertão. A gente queria filmar o último ano. A gente ficou dois meses viajando e filmou com essa vontade de documentar o que era o último ano antes da entrada no novo século, numa região que ficava sempre sendo falada como se fosse uma região do passado, né? Então a gente ficou muito atrás não só de identificar o passado, mas como essa região estava imaginando o futuro. Um filme muito curioso, porque não tinha intenção de ser filme, e sim de ser arquivo, registro, nesse momento histórico da virada do século. Com o passar dos anos, a gente entendeu que tinha algo muito emocionante nas imagens que a gente tinha captado, não necessariamente para fazer um filme. E aí, durante muitos anos, Marcelo e eu, com colaboração da Isabel Araújo e da Karen Harley, a gente foi juntando essas imagens, tentando entender como a gente podia através da história de um personagem falar do sertão, esse lugar com elemento de abandono mas também de um flerte com o futuro. É o tal do slow food. O filme foi cozinhado devagarinho na cozinha de casa. E, em 2009, a gente finalmente chegou ao que a gente conhece hoje como Viajo porque preciso, volto porque te amo. E é bonito mostrar ele hoje, porque era um momento da história do cinema brasileiro em que não existia mais Embrafilme, a Ancine não tinha começado, as políticas de apoio ao audiovisual do governo do PT ainda não tinha sido implementadas. Era um hiato onde a gente não tinha nenhum financiamento. A gente recebeu um apoio para fazer pesquisa, do Instituto Itaú Cultural, junto com o programa Rumos.

“A gente sabe que vai ter que viver com muito pouco. Então, como é que dentro desse ecossistema do audiovisual brasileiro, a gente pode encontrar exemplos de filmes que consigam existir?”.

E era a época do Carranca de Acrílico (nome inicial do projeto)…

Karim – A gente chamava de Carranca… E a gente fez uma pesquisa, sem saber exatamente que ia virar cinema. Mas, num determinado momento, foi importante mostrar que com muito pouco a gente poderia fazer um bom filme. O Viagem foi muito isso… Como é que a gente pega uma colcha para se abrigar do frio, com tecidos que foram meios jogados fora. Tinha algo como um economia narrativa ali. E uma economia de dinheiro, mesmo, porque o filme foi feito com muito poucos recursos, poucas pessoas, mas um filme que tinha a ambição de emocionar. E foi uma surpresa para a gente! Lembro de olhar pro Marcelo e para o João e dizer: “Esse filme vai passar num museu. Ninguém vai ver. As pessoas vão dormir”. E foi talvez de todos os longas-metragens o de maior público por cópia, dos meus oito, nove longas até hoje. Me surpreendeu muito. Ele foi visto por mais de 40 mil pessoas, ficou por semanas seguidas, estava sempre em uma, duas sessões por semana, por seis meses. Sempre que dou aula, sou convidado para falar, acho importante mostrar esse filme porque ele prova que com muito pouco a gente consegue falar para muita gente. É importante isso agora, porque a gente sabe que vai ter que viver com muito pouco. Então, como é que dentro desse ecossistema do audiovisual brasileiro, a gente pode encontrar exemplos de filmes que consigam existir? Fico muito orgulhoso de o filme estar passando e feliz de ser um filme sobre o Nordeste. O Nordeste está cada vez mais sendo representado no audiovisual. Mas quando o filme foi lançado esse número de filmes era radicalmente diferente do que é hoje. Então fico muito feliz de poder dividir esse filme.

Veja trailer do filme Viajo porque preciso volto porque te amo:

Ainda falando do seu cinema, a gente está em cartaz aqui nas televisões  e streaming A vida invisível e Aeroporto Central. A gente vai ver quando o Nardjes A, aqui, no Brasil? Qual a previsão?

Karim – Querido, é engraçado, porque a gente tinha a ideia de lançar ainda este ano. Com a pandemia a gente segurou um pouco. Mas no final desse ano ou começo do ano que vem. Provavelmente em streaming também. Seria muito bom se tivesse em salas de cinema, que fosse visto em tela grande, também, mas o meu sonho é que ele viralizasse. Ele foi feito com câmera de celular e é, de novo, um filme sobre esperança, feito a partir de um ativista na Argélia, que seria, digamos, o meu segundo país. A gente não sabe ainda, mas provavelmente entre agora e o fim do ano, o começo do ano que vem, no Brasil. Minha esperança é que ele inspire a gente no momento em que a gente puder voltar a tomar as ruas, voltar a participar de atos coletivo, que ele possa ser uma inspiração para que a gente possa ter no Brasil, para transformar o Brasil em um País melhor. Então provavelmente até janeiro, fevereiro ou março a gente vai estar dividindo o Nardjes A com o público brasileiro.

“Minha esperança é que Nardjes A. inspire a gente no momento em que puder voltar a tomar as ruas, voltar a participar de atos coletivo, que ele possa ser uma inspiração para que a gente possa ter no Brasil, para transformar o Brasil em um País melhor”

Veja trailer do filme Nardjes A.:

Quando a gente conversou pessoalmente pela última vez, ano passado, você estava com um projeto engatilhado, que era filmar a história dos seus pais.

Karim – Eu estou editando esse filme. Na verdade fui para Argélia pela primeira vez no ano passado. O Nardjes A é um pouco um acidente que acontece nessa viagem. O objetivo era contar a história dos meus pais, mas através de contar o encontro deles, muito inusitado, de uma cearense com um argelino, nos Estados Unidos, na década de 1960, tentar fazer uma história da revolução, da guerra de independência da Argélia da França. Foi muito curioso esse filme. Eu fui atrás da história de uma revolução que aconteceu na década de 60, literalmente 58 anos atrás, sem a qual eu não existiria. Porque eu vim a existir… Meu pai conheceu minha mãe porque houve essa revolução e ele foi estudar nos Estados Unidos e conheceu minha mãe. É engraçado ser fruto de uma revolução, de uma guerra, mas uma guerra de liberação de um país. Então, fui muito atrás de entender que guerra era essa que fez com que meus pais se encontrassem, que fez com que o mundo mudasse tanto. E chegando na Argélia me dei conta de que essa revolução tinha envelhecido, tinha um pouco calcificado ali. E aí tive um presente gigante da vida, que nunca vou poder ser grato à vida por isso, que foi chegar lá e encontrar uma nova revolução. Que é um pouco as manifestações que eu registro quando faço o Nardjes A. Meu pai vem da Argélia, mas de uma região montanhosa, no Nordeste. São os dois Nordestes. Um do deserto, outro da montanha. Uma população que tem uma visão de mundo muito própria, especial, muito antiga, não sei quantos anos antes de Cristo. Para mim, descobrir isso foi também muito bonito. Esse filme fala um pouco dessas duas coisas: essa descoberta de uma etnia que está ali vivendo num lugar que eu não conhecia, mas ao mesmo tempo é um filme de viagem, muito parecido com o Viajo, nesse sentido de descoberta de um país fruto de uma revolução, que hoje está vivendo também um processo revolucionário, mas a partir de uma geração de 20, 20 e poucos anos. Ele hoje em dia se chama Argelino por acaso, e eu não vou mostrar aqui na sala de montagem, mas a gente está editando aqui. E eu acho que ano que vem ele está pronto também.

Falei nele porque você falou comigo há pouco que está escrevendo um roteiro de filme contemporâneo, que não sabe se passa antes da pandemia, durante, ou depois da pandemia. Dá para contar um pouquinho da história desse novo filme?

Karim – Dá não, Émerson… (risos). Dá não! Tu é muito malandro, né (risos)… Tentou, né? Não, querido. Eu prefiro hoje em dia… Tenho uma certa superstição. Prefiro falar do filme depois que eu filmo, entendeu? Porque pode acontecer tanta coisa entre a hora em que você está planejando. E a outra coisa que aprendi nos últimos anos é que gosto sempre de estar com dois, três projetos que estão ali no forno.

Eu nunca falei com você sem você estar com cinco, seis projetos… Não são só dois ou três.

Karim – Ah, mas eu estou com cinco, seis… Antigamente eu falava “Gente, mas é muita coisa”. Agora não. Porque já imaginou, este ano? Não tem nenhum filme este ano. Então você sempre tem que ter um ali, outro acolá. É um ofício que você depende de tanta coisa… E os projetos ficam menos sofridos. Quando só tem um filme, que você está direto ali, quando você não consegue o financiamento, ou quando tem um problema com um ator, tem uma frustração muito grande. Então hoje eu prefiro tomá-los com mais leveza, mais amor, mais carinho e ter alguns orbitando ali em volta. Mas prefiro falar depois que estiverem mais concretos.

A gente está chegando ao final da nossa live. Antes de a gente se despedir, queria abrir o microfone para você. A gente conversou antes e você disse que estava louco para falar sobre o Brasil. Topou por conta disso a nossa conversa. Então a gente já falou um pouco sobre isso no começo, queria que você ficasse à vontade para dar o seu recado agora.

Karim – Cara, eu queria dar alguns recados. Queria agradecer a você, a Verônica (Guedes, uma das coordenadoras do Festival Gente é para Brilhar… Não para Morrer de Fome), por uma iniciativa tão importante. A toda a equipe do Festival. Eu acho que vocês poderem sonhar e poderem ter um ato de solidariedade com a classe artística no Ceará realmente é muito impressionante. Então queria dar os parabéns. Queria agradecer por estar aqui. E dar os parabéns aos governadores, que estão tomando conta do Brasil. Agradecer ao Flávio Dino (MA), ao Camilo Santana (CE), ao Cabeto (secretário de Saúde do CE), a todos os governadores que estão agindo de maneira responsável, dentro de um quadro de aguda irresponsabilidade. Eu queria denunciar algumas pessoas aqui, que acho importante que a gente fale delas. Queria denunciar o João Polinário, da Polishop; o Sebastião Bonfim, da Centauro, o Luciano Hang, da Havan; Flavio Rocha, da Riachuelo; o Edgard Corona, da BioRitmo; o Junior Dursk, da Madero. São pessoas que têm que ser interpeladas. Tem que ficar publicamente o apoio que estão dando ao genocídio que está acontecendo no Brasil. E eu queria dedicar essa live a todos os trabalhadores da Saúde do Brasil, que estão à frente na luta contra essa loucura, essa tragédia que a gente está vivendo. E queria que a gente todo dia fizesse um minuto de silêncio, pelo menos isso, às vítimas dessa pandemia, que merecem respeito e que precisam ser tornadas públicas. O que a gente está vivendo é muito sério. Então é isso. Queria que se a gente pudesse a cada dia fazer um minuto de silêncio por essas vítimas, a gente ia talvez poder entender melhor a tragédia que a gente está vivendo. Queria talvez dedicar finalmente a todos nós, que estamos resistindo a um momento tão duro que a gente está passando. E torcer que isso passe logo, que isso tem que passar. Mas é isso. Obrigado pelo tempo, obrigado pela oportunidade de estar aqui.

Festival Gente É Pra Brilhar

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